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"O desenvolvimento econômico só tem sentido se acompanhado do desenvolvimento humano", diz Abram Szajman


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O Brasil ainda enfrenta o desafio adicional de romper a transmissão da desigualdade entre as gerações por meio da melhoria dos serviços básicos e da infraestrutura urbana (PixAbay)

Abram Szajman

O Brasil já viveu situação parecida com a atual, quando após mais de uma década de forte intervenção de um Estado hipertrofiado nas mais diversas esferas da vida nacional, principalmente na economia, a sociedade busca se organizar para ocupar os espaços que lhe são próprios.

Essa delicada transição se deu em momento também conturbado por disputas políticas e ideológicas, nos anos 40, após o fim da 2.a Guerra Mundial. Mudanças estruturais no País que deixava de ser agrário para se urbanizar e industrializar provocavam, então, as mesmas dores de parto hoje causadas pela globalização e o advento da rede mundial de computadores.

Enquanto o papel do Estado era intensamente discutido, como ainda é hoje, um grupo de empresários, preocupados com as profundas desigualdades sociais que desde sempre caracterizaram o País, reuniram-se para criar instituições como o Serviço Social do Comércio (Sesc) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), com suas congêneres na indústria.

Em documento histórico aprovado em 1946 com o nome de Carta da Paz Social, seus autores estabeleceram os objetivos dessas entidades, sustentadas exclusivamente por contribuições das empresas de cada setor: atender às necessidades sociais urgentes e proporcionar aos trabalhadores maior soma de bem-estar social e igualdade de oportunidades. A iniciativa pioneira não só no País, mas em nível mundial, antecedeu em décadas o envolvimento empresarial em projetos de responsabilidade social, que se consolidou nos anos 90, para adotar medidas que não só melhoraram continuamente o nível de vida dos empregados, mas lhes facilitaram os meios para seu aperfeiçoamento cultural e profissional.

A Carta da Paz Social propunha, a partir de uma visão de mundo liberal e democrática,um reconhecimento recíproco de direitos e deveres entre empregados e empregadores que permanece absolutamente atual. Fazia a defesa de “um verdadeiro regime de justiça social”, no qual ficassem garantidos aos empresários “o exercício livre e estável das atividades” e aos trabalhadores “uma existência digna e a crescente participação na riqueza produzida”.

Ao longo de sua história, o Sesc promoveu vários programas que setomaram modelares nos campos da educação, da saúde, da cultura, do lazer e da assistência, permitindo a participação de milhões de trabalhadores do comércio e de serviços e da comunidade. Tais ações inspiraram e seguem inspirando o desenvolvimento de políticas de bem-estar social. Trata-se de uma das características mais marcantes do trabalho da instituição: colocar o seu “saber-fazer” à disposição da sociedade.

Enfrentando sucessivas ameaças de estatização ou sequestro parcial de suas verbas, não se desviou do caminho de mostrar, na prática, que responsabilidade social não se pode resumir aos atos filantrópicos e altruístas pontuais.Ao contrário, manteve desde sua criação uma parceria duradoura com os governos em diferentes níveis para articularprojetos sociaiscom políticas públicas. E assim fazer valer, efetivamente, os direitos civis, políticos, sociais e econômicos tantas vezes negados aos brasileiros mais necessitados.

Mergulhado na recessão e no desemprego , o Brasil ainda enfrenta o desafio adicional de romper a transmissão da desigualdade entre as gerações por meio da melhoria dos serviços básicos e da infraestrutura urbana.

No contexto de conhecidas e ainda não superadas mazelas das políticas públicas de cultura, educação, esportes, turismo e da promoção da saúde, o desenvolvimento da qualidade de vida e o sentido da cidadania,como propunha e realiza o Sesc, tem papel primordial a oferta de reais oportunidades para que os trabalhadores e seus dependentes tenham uma perspectiva mais ampla e digna para sua existência.

Como há 70 anos, é preciso selar novamente este pacto com o futuro por meio da compreensão de que o desenvolvimento econômico só tem sentido se acompanhado do desenvolvimento humano e o conhecimento for reconhecido como o patrimônio mais valioso, para as pessoas e para os países.

*Abram Szajman é presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP).


Artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo no dia 5 de outubro de 2016.

Fonte: Fecomércio-SP

 


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